quarta-feira, 8 de junho de 2011

Sentimento de um ocidental - parte II Noite fechada

II

Noite Fechada

Toca-se às grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O Aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,
Bem raramente encerra uma mulher de <dom>!

E eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes;
À vista das prisões, da velha Sé, das Cruzes,
Chora-me o coração que se enche e que se abisma.

A espaços, iluminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.

Duas igrejas, num saudoso largo,
Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:
Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela História eu me aventuro e alargo.

Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as construções rectas, iguais, crescidas;
Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas,
E os sinos dum tanger monástico e devoto.

Mas, num recinto público e vulgar,
Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras,
Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras,
Um épico doutrora ascende, num pilar!

E eu sonho o Cólera, imagino a Febre,
Nesta acumulação de corpos enfezados;
Sombrios e espectrais recolhem os soldados;
Inflama-se um palácio em face de um casebre.

Partem patrulhas de cavalaria
Dos arcos dos quartéis que foram já conventos:
Idade Média! A pé, outras, a passos lentos,
Derramam-se por toda a capital, que esfria.

Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Aos lampiões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir às montras dos ourives.

E mais: as costureiras, as floristas
Descem dos magazines, causam-me sobressaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
E muitas delas são comparsas ou coristas.

E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados:
Entro na brasserie; às mesas de emigrados,
Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.


Analise do poema - Noite fechada

O tema é a desigualdade social, e o assunto que o poeta retrata neste é a situação social, e durante a toda a sua exposição é possível observar no estado em que se encontra o poeta tendo em conta aquilo que observa inicialmente durante a noite. Neste panorama nocturno o poeta encontra-se mortificado, atormentado com o facto de ver pessoas a baterem nas grades das cadeias e também identifica no meio de seio social baixo a presença de uma mulher de “dom” o que acha estranho e lamenta principalmente que as velhinhas e as crianças tenham de se recolher no Albuje. O poeta fica de tal modo chocado com o que vê, que nem quer acreditar. É com o acender das luzes que ele se depara com a situação mais constrangedora para ele e que lhe toca no coração chegando ao ponto de sentir o seu coração chorar, recorrendo a um exagero sentimental para provocar um maior impacto no leitor, para que este também fique sensibilizado relativamente a situação descrita. Quando presente num cenário diurno este aproveita para criticar a situação da igreja e do próprio clero, recorrendo a uma recriação das praticas das igrejas antigas referindo as suas praticas repressivas, a inquisição, mas ao mesmo tempo tentando-as justificar através de realidades negativas, relacionadas com inclusões relativas a situações históricas.
Continuando numa descrição em que o cenário diurno se encontra por base, o poeta resolve ir visitar a parte reconstruída da cidade, em que esta visita lhe suscita sentimentos de encurralamento e demonstra o seu desagrado mais uma vez relativamente a igreja mas desta vez através da audição, “E os sinos dum tanger monástico e devoto”. É também durante as suas manifestações de agrado e desagrado que Cesário resolve invocar, relembrar Camões de forma honrosa e homenageaste. E é num continuo descrever sentimental que Cesário continua a demonstrar o seu desagrado e a sua preocupação relativamente as pessoas desfavorecidas, é neste ponto que o poeta dá-lhes principal destaque, e mostra desagrado relativamente as entidades cuja sua função de preservação da sociedade, e demonstra-se sensível em relação às contradições sociais. No entanto o poeta demonstra-se descontente  e refere que se comisera com tristeza da cidade, em oposição o poeta também se descai relativamente à paixão que a cidade lhe avive, mas sente-se desapontado ao deparar-se com os desfavorecidos da vida e entra em sobressalto com as vidas duplas das costureiras e coristas. O poeta descontente com este tipo de atitude de vida dupla, ele diz que estas são influenciadas pelo estrangeirismo na moda a designar as lojas por magazines.
Contudo o poeta acaba dizendo e considerando-se um homem atento em que a sua luneta o ajuda a não deixar escapar nada, e tendo sempre assuntos perante “os quadros revoltados” que abundam na cidade.