sexta-feira, 8 de abril de 2011

Eça ou a Arte da Ironia


Fazendo uma breve introdução relativamente à bibliografia de Eça, e nos referenciado que, este autor nasceu em 1845 a 25 de Novembro. Eça fica marcado desde nascença, pois este é filho de um romance antes do casamento, o que era um escândalo na época. Eça para a sua família era considerado como bastardo, mesmo após o casamento dos seus pais, este nunca foi criado com a família. De certo modo, o facto de este nunca ter sido criado no seio familiar, é como se tivesse sido abandonado pela sua família, a este facto que aconteceu na vida de Eça, este de um modo transmite-o no Maias, através do abandono de Carlos, pela fuga da sua mãe e posterior suicídio de seu pai.
“A Maria tinha fugido de casa com a pequena... Partiu com um homem, um italiano...”
                                                                                                                             Os Maias de Eça de Queirós pág. 37
É também através desta referência que nos é permitido ver traços de ironia, presentes nas mulheres da sua obra, que neste caso traduzem um modo aquilo que ele sente relativamente a elas, tendo em conta o que se passou na sua infância e também existe uma grande presença de ironia no que toca ao destino das suas personagens, que é o caso de Carlos da Maia e Maria Eduarda. O facto de ambos possuírem o mesmo nome sendo o Carlos, Carlos Eduardo e a Maria ser Maria Eduarda, é o acaso da vida, até mesmo a ironia da vida, o próprio relacionamento deles é proveniente de uma ironia criada por Eça. A separação deles em crianças e o próprio encontro deles quando são adultos, o próprio romance que eles vão viver têm a ironia colocada por Eça.
Eça usa a ironia a muitos pontos, o seu auto-retrato na obra é um traço irónico, a criação de Ega na obra é um gesto satírico e até mesmo de auto-critica, ele nesta obra usa as personagens para satirizar, criticar a sociedade da época. A questão do novo-rico presente em Dâmaso, a ganância desmedida da personagem, o querer imitar os outros para subir na sociedade, foram características que Eça observou e as transmitiu para a sua personagem, carregando-a excessivamente para lhe dar o impacto desejado, traçando-a de forma irónica. Toda esta personagem é criada na base da ironia, desde a sua maneira de ser até a sua forma de vestir.
“… com um rapaz baixote, gordo, frisado como um noivo de província, de camélia ao peito e plastrão azul-celeste. O Craft conhecia-o; Ega apresentou a Carlos o Sr. Dâmaso Salcede, e mandou servir vermute, por ser tarde, segundo lhe parecia, para esse requinte literário e satânico do absinto...”
                                                                                                                                      Ibidem pág. 130
Eça e um autor realista com traços românticos, mas fundamentalmente realista, este fez parte da geração de 70 que tinha como objectivo uma renovação da vida política renovação da vida política e cultural portuguesa, que estava a viver uma autêntica revolução com os novos meios de transportes ferroviários, que traziam todos os dias novidades do centro da Europa, influenciando esta geração para as novas ideologias. Foi o início da Geração de 70. Em Coimbra onde este estudou também o grupo da geração de 70 gerou polémica em tornos dos confrontos literários com os ultra românticos. O mesmo se passa nos Maias durante o jantar do Hotel Central, que tinha como objectivo a apresentação social de Carlos, mas no entanto houve uma discussão sobre literatura,  as finanças e a politica do país, onde se destaca a discussão entre Alencar e Ega relativamente à literatura.
“O naturalismo; esses livros poderosos e vivazes, tirados a milhares de edições; essas rudes análises, apoderando-se da Igreja, da Realeza, da Burocracia, da Finança, de todas as coisas santas, dissecando-as brutalmente e mostrando-lhes a lesão, como a cadáveres num anfiteatro; esses estilos novos, tão preciosos  e tão dúcteis, apanhando em flagrante a linha, a cor, a palpitação mesma da vida; tudo isso (que ele, na sua confusão mental, chamava a  Ideia Nova), caindo assim de chofre e escangalhando a catedral romântica, sob a qual tantos anos ele tivera altar e celebrara missa, tinha desnorteado o pobre Alencar e tornara-se o desgosto literário da sua velhice.”
                                                                                                                                                                Ibidem pág.134-135